Total de visualizações de página

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A Serra de Baturité e sua História

"Entre as vertentes dos rios Choró e Canindé e as cabeceiras do Pacoti, ergue-se a uma altitude de mil metros uma vasta montanha, eriçada de largos espigões e recortada de longos vales, donde emanam límpidos correntes, que nas quebradas se vão reunindo em rios perenes e torrenciais.
No princípio do século XIX, era a serra de Baturité inteiramente coberta de mata virgem, espessa, úmida e sombria; e formava, em meio da vasta e ondulada planura dos sertões, ressequidos e desnudos durante os meses de estio, um enorme maciço de luxuriante verdura e delicioso frescor, que gradativamente baixava das alturas dos céus, qual terra da promissão, oferecida como uma recompensa de Deus aos cearenses heróicos e sofredores.
As altas e frias cumeadas, retendo e refrigerando as nuvens procedentes do mar, provocavam freqüentes chuvas, que nos meses de inverno se tornavam amiudadas e impertinentes, e que não faltavam nem mesmo nos anos de seca rigorosa no sertão.
A princípio era a serra povoada pelos selvagens Canindés e Genipapos, que perseguidos e dominados, foram por fim reunidos no pé da serra na aldeia de índios de Monte-Mor Novo da América, onde se lhes concedeu a posse em comum de uma faixa de terra sobre o rio Aracoiaba, no lugar que por isso ficou sendo chamado Comum."
(Esperidião de Queiroz Lima - Antiga Família do Sertão)

BATURITÉ é uma palavra de origem indígena
(ibitira/batura = monte de terra ou serra eté = principal, a verdadeira ou real)
que, em Tupi Guarani, tem o sugestivo significado de
SERRA VERDADEIRA, ou ainda,
SERRA MELHOR QUE AS OUTRAS.
Na verdade, a tradução desse topônimo constitui um pleonasmo, uma vez que BATURITÉ já significa "SERRA", e ao enunciarmos: "SERRA DE BATURITÉ" - estamos nos referindo à

 "Serra de Serra Verdadeira".

Mas é exatamente essa a força expressionista usada pelos índios que habitavam aquela região, quando mencionavam algo em relação a esta nossa SERRA em especial, ou quando a comparavam à outras serras do Ceará. Ou seja, para eles, esta é uma Serra Majestosa, uma Serra por excelência.
Situada na região centro-norte do estado, destaca-se por seu clima ameno e abundância de água, o que lhe proporcionou, no final do século XIX e início do século XX, um período de grande prosperidade econômica e social.

As Primeiras Propriedades:
No início do século XIX, a SERRA de BATURITÉ passou a ser muito procurada pelos fazendeiros do sertão de Quixadá, de Quixeramobim, do Pirangi, do Canindé e da ribeira do Jaguaribe. Na estiagem dos verões prolongados e quentes, iam em busca de alimento, do refrigério daquele clima ameno e saudável. Era grande a penúria que sofriam com suas famílias, sob o sol escaldante do sertão nos calamitosos anos de seca. Por essa razão, eles iam, sobretudo, em busca das terras férteis e molhadas, apropriadas para o cultivo do milho, do feijão, da batata doce, do jerimum e da mandioca.

"Até 1820, pouco progresso houve no avanço serra acima. Depois desta data, no entanto, aconteceu uma verdadeira corrida, especialmente após a introdução do café, em 1824, coincidindo com a chegada de algumas famílias transplantadas de Quixadá para o coração da serra. Queirozes e Holandas foram estes desbravadores destemidos, homens fortes e saudáveis. A tradição popular, até o começo do presente século guardava a lembrança da tenacidade e energia desses homens corajosos e, sobretudo, portadores de um verdadeiro espírito de pioneirismo."
(Vinicius de Barros leal - História de Baturité, 1981 - pág. 81)

Pelo ano de 1825, muitos fazendeiros vindos do sertão subiam as ladeiras íngremes da Serra, acompanhados da família e dos escravos, levando com eles os recursos que dispunham em dinheiro, algumas vacas e cabras leiteiras, e os animais de carga necessários para conduzir o comboio.
As primeiras propriedades adquiridas na Serra foram através de antigos exploradores que, vendo ali a oportunidade de um bom negócio, abriam picadas na mata virgem determinando de modo rudimentar as extremas de uns pequenos lotes para venderem aos fazendeiros.
De posse   da terra, os bravos e destemidos sertanejos derribavam a mata preservando as toras de madeira mais fáceis de transportar a fim de serem aproveitadas nas construções de casas provisórias, feitas de taipa e cobertas com palhas (folhas) de palmeira de babaçu, abundantes na Serra de Baturité. O restante da madeira era queimada em coivaras.

"Ali, nos anos mais terríveis de seca, quando o sertão todo está pegando fogo, as nascentes continuam dando água, o verde não murcha. A Serra é o refúgio do flagelado, e não sei de sertanejo daquelas ribeiras que não tenha, pelo menos num ano, escapado vida e fazenda, nos vales frescos de Guaramiranga ou Pacoti."
Rachel de Queiroz

Entre a Serra  e o Sertão

Os fazendeiros passaram assim, a viver entre a SERRA e o SERTÃO. Ficavam na Serra durante os períodos de estiagem ou seca. Mas ao prenúncio das primeiras chuvas de inverno regressavam às suas fazendas, onde eles teriam em abundância todos os legumes e mais o algodão, além da fartura da carne, do leite e de todos os seus derivados.

“Acima de tudo, gostam desta terra velha, ingrata, seca, doída, pobre; e nisso estou com eles, e só por cima dela temos gosto de tirar os anos de vida, só debaixo dela nos saberá bem o descanso, depois da morte”
Rachel de Queiroz.

Sem falar que o sertão era a terra propícia para se criar, o que lhes constituía a ocupação predileta e a riqueza de mais fácil comércio. Assim, na estação chuvosa, os fazendeiros permaneciam em suas fazendas no sertão. Na época de estiagem, de verão ou de seca, subiam a Serra e aí ficavam em seus sítios. A história da Serra foi construída assim...
Até 1830 ainda existia índio no sopé da Serra, sobretudo em Baturité.
Houve em 1844, um inverno muito escasso que deixou os sertanejos sem nenhuma reserva alimentar. Veio então a terrível SECA de 1845 e a solução encontrada foi a retirada geral das famílias sertanejas que se deslocaram, principalmente para a Serra de Baturité.
Muitos sertanejos ali se estabeleceram e tomaram posse de suas terras que, a princípio, eram pequenos roçados.
Somente a partir de 1855 foi sancionada uma LEI IMPERIAL conhecida como Lei 601, ordenando que fossem cadastrados todos os sítios e propriedades da Serra de Baturité. Esses registros foram feitos através dos vigários das paróquias, tendo em vista que, eram eles que visitavam as famílias, realizavam os casamentos e os batizados, ministravam a benção dos enfermos, e conheciam, portanto, todas as pessoas que ali nasciam e residiam.
Nessa época, eles peregrinavam de casa em casa montados em burros ou cavalos. Percorriam todos os recantos da Serra e recebiam como gratificação do governo imperial, a quantia de “um vintém” a cada registro apresentado.


O CAFÉ - sua origem e história

O cafeeiro (Coffea sp.) é um arbusto da família Rubiaceae e do gênero Coffea, do qual se conhece hoje mais de cem espécies.
A história do café começou no século IX. Originário da província de Kaffa nas terras altas da Etiópia, país do continente africano, passou aos persas e daí aos árabes, que o cultivaram durante anos e só o divulgaram como bebida a partir do século XV. Espalhou-se então pelo mundo e chegou ao Egito, depois à Europa e veio para a América do Sul, através da Guiana Francesa. Holandeses e franceses, a exemplo dos povos árabes, tentaram manter o monopólio do cultivo do café. Mas em 1727, o jovem oficial brasileiro Francisco de Mello Palheta trouxe umas sementes que ganhou “sorrateiramente” de Madame d’Orvilliers, esposa do governador da Guiana Francesa e plantou-as no Pará.
A partir dessas sementes haveria de crescer o poderoso Império Brasileiro do CAFÉ– um episódio bem apropriado para a história deste grão tão sedutor.

A palavra "CAFÉ" não deriva de Kaffa, região africana onde foram encontradas as primeiras plantas da espécie. Os árabes foram os primeiros a cultivarem o cafeeiro, daí o nome científico: Coffea arábica – café-arábico – uma das mais importantes espécies de café, cujos grãos secos, depois de torrados e moídos se transformavam em uma bebida que eles chamavam de "qahwa", que significa vinho, por esse motivo era conhecido como “vinho da Arábia”.

O CAFÉ na Serra de Baturité

Do Pará, a cultura passou para o Maranhão e, por volta de 1760, outras sementes foram levadas para o Rio de Janeiro por João Alberto Castelo Branco, onde se espalhou pela Baixada Fluminense e posteriormente pelo Vale do Paraíba.
O CAFÉ só foi introduzido na SERRA de BATURITÉ a partir de 1822, por Antônio Pereira de Queiroz Sobrinho. Ele plantou umas sementes trazidas do Cariri no sítio Munguaípe, colhidas em cafeeiros de Pernambuco. Dois anos depois, em 1824, Manoel Felippe Pereira Castello Branco (pai do coronel João Pereira Castello Branco, dono do Sítio São Luis, em Pacoti) trouxe umas sementes adquiridas no Pará, e plantou-as no “sítio Bagaço”, em Mulungu.
Durante mais de cem anos o café ocupou importante papel na história da economia cearense, mas a borracha, produzida pela maniçobeira (Manihot glaziovii, Mull.), também movimentou durante um curto e significativo período, não só a economia da Serra de Baturité, mas de todo o estado do Ceará.
As plantações de café na Serra, ao contrário do que acontecia nas regiões centro e sul do Brasil, não estavam só nas mãos dos ricos fazendeiros. Boa parte dos roçados pertencia a pequenos proprietários, parceiros ou agregados. A maioria dos sítios foi assim formada a partir desses pequenos “roçados de café”, e muitos proprietários de terra adquiriram plantações extras de café numa escritura à parte.
Os roçados eram vendidos separadamente, como se pode ver no detalhe da escritura de compra e venda de um cefeeiral adquirido pelo Coronel João Pereira Castello Branco, datada de 16/03/1878:



Havia até mesmo um costume bem curioso de se dar nomes a esses roçados.
No Sítio São Luis, eles têm nomes próprios, talvez dos seus antigos donos (Antônio Anjo, José Amaro, Casciano, Chico do Birro), outros têm nomes de santos (Santo Antonio, Santa Rosa, Sant’Ana, São Miguel), de árvores (Favinha, Gameleira, Pau Ferro, Pau d’Arco, Ingazeira, Quina-quina), de aves (Uru, Graúna, Alto da Juriti), e muitos outros: Purgatório, Céu, Mocó de Pena, Saco da Roda, Alto Redondo, Gama, Pagão, Pau Casado, etc.
Muitos documentos dessa época, como esse do Casciano, descrevem:

um roçado com quatro mil pés de cafeeiros, pouco mais ou menos, que possuímos no Sítio São Luis, propriedade do Sr. João Pereira Castello Branco...



Sendo uma cultura permanente, o CAFÉ era cultivado na Serra como o algodão arbóreo (algodão mocó), era cultivado no sertão. E ali permanecia, mesmo depois da colheita das culturas temporárias (milho, feijão e mandioca) exigindo apenas alguns cuidados como a roçagem que era feita pelo menos uma vez ao ano.
O café só prosperou economicamente na Serra, a partir de 1845, quando boa parte das famílias de fazendeiros vindos do sertão tangidos pela seca, ali se fixou.
Entre 1845 e 1877 não se registrou nenhuma seca no Ceará, foi um período de muita fartura e desenvolvimento na história da Serra. Os primeiros roçados de café plantados a céu aberto prosperaram por cinco décadas com belas floradas e grandes colheitas.

Há relatos de que a época da floração do café era realmente um espetáculo de rara beleza, não só pelo perfume que emanava das flores que cobriam as encostas dos morros, mas também pelo contraste do verde das matas com a brancura das flores (ver poemas no final do texto).

Para escoar a produção cafeeira, foi construída a primeira estrada de ferro do Ceará, saindo de Fortaleza pela Avenida Tristão Gonçalves e seguindo até Baturité. Iniciada em 20/02/1870 foi inaugurada em 1882
A razão dessa ferrovia direcionada especificamente a Baturité foi por ser aquele maciço, não só o manancial do Ceará pela fartura de frutas e hortaliças em geral, mas, sobretudo pelo CAFÉ ali produzido.
Até essa data, todo o transporte de legumes, hortaliças, frutas, algodão e café da região, era feito em lombos de animais até o porto de Fortaleza. Sendo que boa parte do café produzido na Serra era exportado principalmente para Portugal, França e Alemanha. Por esse motivo, Baturité chegou a sediar dois consulados, um da França e outro de Portugal. O primeiro cônsul português foi o Dr. Bernardino Proença (origem da família Proença no Ceará), proprietário de duas indústrias em Baturité, uma de cigarros e outra de bombons. Existiam ainda as usinas de algodão e de milho. Tudo isso trazido através da riqueza gerada a partir da cultura do café.
Além do comércio que movimentava os proprietários de sítios, muitas personalidades se destacaram ali no mundo cultural: Benigno Pereira lançou dois jornais em Guaramiranga, no início do século IXX, os quais eram impressos em Baturité. Ainda em Pacoti e Guaramiranga, respectivamente, Luis Pimenta e Dona Lili se destacavam como teatrólogos talentosos, apresentando os “dramas” (teatro popular que retrata fábulas ou fatos pitorescos), que marcavam as festas da Igreja e outras datas festivas como o encerramento da colheita do café.


Meu pai relatava que as CAVALHADAS também faziam parte das comemorações da Igreja, quando a população se organizava em dois partidos: o AZUL e o ENCARNADO (vermelho). Cada partido escolhia sua RAINHA, incumbida de conseguir o maior número de prendas e uma boa soma em dinheiro, arrecadados junto à população.
Durante o “novenário” que precedia as festividades natalinas ou a festa do santo padroeiro, havia as QUERMESSES, com barracas de comidas e muitos adereços expostos à venda. Essas noites festivas findavam sempre com um animado e concorrido LEILÃO, cujas prendas mais valiosas eram ofertadas sobretudo pelos proprietários de sítios da Serra e comerciantes locais.
Entre as prendas mais disputadas havia desde os bolos preparados pelas sinhazinhas, moças casadouras, que se dedicavam igualmente a outros mimos feitos com bastante antecedência, como alguns lenços bordados em "ponto de crivo".
É interessante ressaltar que, uma forma de homenagear um amigo era arrematar a prenda doada por ele e lhe presentear em seguida.
Assim, algumas prendas ofertadas pelas moças donzelas, deveriam ser arrematadas pelos seus futuros pretendentes e, em seguida, gentilmente oferecidas às essas senhorinhas, donas da prenda, entre generosos galanteios, motivando assim uma proximidade que poderia terminar em casamento.
(Ver capítulo “BODAS de SANGUE”:
http://familiaqueirozbarreira.blogspot.com.br/2011_01_09_archive.html)
Havia ainda alguns quitutes como galinha e leitão assados, entre inúmeros tipos de prendas "vivas" bem interessantes: galinha cevada, peru, capote, novilha de cabra, porco, carneiro, boi ou garrote gordo.

A CULTURA CAFEEIRA nesse primeiro ciclo de produção, teve tanta repercussão na economia do estado que, um dos maiores produtores de café, grande proprietário de terras, abastado e probo comerciante, teve a ideia de mandar cunhar em Portugal umas MOEDAS em bronze, com os seus valores referenciados nas medidas de CAFÉ em grão, usadas naquela época, ou seja:

1 Alqueire (= 128 litros de café), 1 terça (= 42,6 litros de café) e 1 Quarta (= 32 litros de café).

Era o português Manoel José D’Oliveira Figueiredo, da firma Figueiredo & Rocha (proprietária do sítio Macapá), dono do SÍTIO BOM SUCESSO, localizado às margens da estrada que liga Guaramiranga a Pacoti.




O processo de colheita e beneficiamento do café era feito de maneira muito rudimentar. Os grãos maduros depois de colhidos eram levados para secar nas faxinas, um local plano e a céu aberto, com piso de tijolo ou simples terreiros de terra batida. Depois de secos, os grãos eram pilados (descascados) nos toscos pilões entalhados em troncos de velhas Aroeiras ou de Pau Ferro. No pilão eram socados com mão de pilão e peneirados em urupembas de taquara, tudo feito artesanalmente.
Com o tempo surgiram os “rodeiros”, uma engenhoca muito simples movida por tração animal. O velho Figueiredo possuía em sua propriedade um lugar estratégico onde montou um rodeiro bem estruturado movido pela força hidráulica. 


 Imagens do Rodeiro da Fazenda Floresta,
movido por tração animal,
em Guaramiranga - CE

Como a produção dos grãos crescia e o processo de pilação era ainda muito lento, muitos cafeicultores procuravam o Coronel Figueiredo pra fazer o beneficiamento dos grãos em seu rodeiro. O café já começava a se amontoar nos armazéns da Fazenda Bom Sucesso. Enquanto isso os produtores e comerciantes cobravam dele uma garantia de que teriam de volta o seu CAFÉ beneficiado ou o dinheiro equivalente. Foi quando o velho português, empreendedor que era, teve a brilhante ideia de mandar cunhar em Portugal umas moedas com as medidas equivalentes aos litros de café em grão. Essas moedas muito bem cunhadas em bronze, datam de 1895 e tinham além do nome completo, o endereço de seu proprietário. Quem deixava o café pra ser pilado recebia na hora as moedas equivalentes como garantia. Foi assim que elas começaram a circular de mão em mão, por toda a Serra e depois pelo sertão de Quixadá, de Quixeramobim, de Canindé, e de regiões vizinhas. Começaram a ser usadas com o mesmo valor do dinheiro vigente, tendo como lastro o CAFÉ e a garantia do velho comerciante. Os antigos moradores da Serra relatavam que com essas moedas era possível se comprar gêneros, roupas e utensílios diversos pelo sertão afora, porque o CAFÉ da Serra de Baturité era desejado por todos os estabelecimentos comerciais do estado. Os mais velhos contavam que essas moedas teriam circulado pelo sertão do Cariri, atravessaram as fronteiras do estado e chegaram até o Exu no sertão de Pernambuco.



Com a falência da cultura cafeeira na Serra, o Coronel Figueiredo vendeu suas propriedades para honrar todas as moedas que lhe foram apresentadas.
E numa noite memorável reuniu-se com os amigos no antigo sobrado do Sítio Pau d'Alho, na entrada de Pacoti.


Sobrado do Sítio Pau d'Alho,
Construído pelo Coronel Epifânio Ferreira Lima.

 

Após o jantar onde relembrou sua trajetória de vida, presenteou as moedas ao amigo anfitrião, Aprígio Alves Barreira Cravofoi pra casa e suicidou-se. Aprígio tendo vendido a propriedade ao seu primo, Coronel José Marinho Falcão de Goes, meu avô paterno, deixou todas as quinquilharias que existiam no velho sobrado com o seu procurador, Dr. Luis Cícero Sampaio, a louça inglesa e essas moedas. Foi por esse motivo que, durante muitos anos elas serviram ali, no Sitio São Luis, como "fichas" para as apanhadeiras de café.
Quase um século depois as moedas do velho português tiveram sua história resgatada, publicada em vários jornais do país e registrada no Boletim N° 21 da Sociedade Numismática Brasileira.
Hoje elas são consideradas, pelos colecionadores, as moedas particulares brasileiras mais bonitas e mais valiosas.

A Aristocracia Rural na Serra de Baturité

Toda essa riqueza gerada pela cultura cafeeira proporcionou a formação de uma verdadeira Aristocracia Rural na Serra de Baturité.
Algumas dessas casas, típicas da era colonial, tinham mobílias austríacas, poltronas e cadeiras entalhadas, estilo Luis XV. Consolos com tampos em mármore de Carrara, lavabos franceses e lampiões com base em jarra de opalina francesa. Os candelabros de prata, os espelhos e lustres em cristal da Bohemia, adornavam as salas nas noites de saraus onde não podiam faltar os famosos pianos Dörnner importados da Alemanha.
Dentro da pequena Vila de Guaramiranga existiam sete pianos Dörnner. A louça inglesa e os talheres de prata eram postos sobre as mesas fartas, forradas com toalhas de fino linho e bordados da Ilha da Madeira. O vinho do Porto e a uva moscatel acompanhavam as iguarias servidas nos banquetes com um repasto de outros produtos importados da Europa. Tudo isso era transportado de trem através do primeiro caminho de ferro do Ceará, desde o porto de Fortaleza até a estação de Baturité. Dali seguiam Serra acima, em lombos de animais ou nos braços dos escravos, pelas estreitas e sinuosas veredas lamacentas e escorregadias, até o seu destino final.
Não havia, no entanto, a ostentação do luxo que predominava entre as mansões dos barões de café no sul e sudeste do país. Eram típicas casas de fazendeiros, homens simples, acostumados a conviver com a rudeza das secas e à escassez do sertão nordestino.
A cultura do café na Serra aliada à intensa produção de algodão no sertão marcou assim um período de muita fartura e abastança na vida desses fazendeiros cearenses.
Homens de vida pacata, que trabalhavam com afinco para conseguirem condições financeiras favoráveis nos negócios. No entanto, o maior investimento que faziam era sobretudo na educação dos filhos. Muitos deles seguiam ainda bem jovens para a Faculdade de Direito na cidade de Recife, ou eram mandados ao Rio de Janeiro cursar Medicina. Alguns iam até mesmo para a Europa, de onde só voltavam para uma rápida temporada de férias ou com o diploma na mão.
Formava-se assim a primeira geração de "fazendeiros doutores", filhos e netos de coronéis!

Foi assim com dona Rachel de Queiroz Lima (avó da Rachel de Queiroz, de quem a escritora cearense herdou o nome), e sogra do Coronel Chichio (Francisco de Mattos Brito), casado com sua filha Adelaide Queiroz, meus bisavós maternos.

Geração de Fazendeiros - Histórias de Família

Dona Rachel de Queiroz Lima, era filha única dos fundadores do Sítio Guaramiranga e dona da rica Fazenda Califórnia, em Quixadá (Ver tópico A CALIFÓRNIA, no Blog: http://familiaqueirozbarreira.blogspot.com.br).

Contava quarenta e três anos de idade quando seu marido, o Dr. Arcelino de Queiroz Lima, bacharel em Direito, faleceu em 19/11/1895, deixando-lhe viúva com dez filhos, “sendo oito menores, inclusive o último com seis meses de idade, – assumiu a administração de seus bens, fez seguirem para o Rio de Janeiro o filho maior João Baptista, que recomeçando os estudos matriculou-se na Faculdade de Medicina, e Esperidião*, que foi fazer os preparatórios, para o Colégio Abílio. Os outros filhos continuaram os estudos em Colégios locais, sendo mandados para o Rio à medida que iniciavam o curso secundário.” Essa resolução foi criticada por parentes e amigos “que lhe aconselharam a criar os filhos, trabalhando na fazenda, dando-lhes, para começarem a vida, o dinheiro que teriam de gastar nos estudos.” Ao que dona Rachel respondeu dizendo que “as fazendas divididas em dez partes e sujeitas às vicissitude das secas, não garantiriam a prosperidade futura dos filhos, que corriam assim o risco de ficar pobres e ignorantes, como freqüentemente acontecia.” (Esperidião de Queiroz Lima – Antiga Família do Sertão)

José Marinho Falcão de Goes, meu avô paterno, tinha 17 anos de idade quando embarcou para a cidade de Louvain, na Bélgica, em 1893, juntamente com vários outros quixadaenses, entre eles o Dr. Eurico Olímpio e o professor Júlio Holanda, seu cunhado. Estudou no colégio “La Trè Santinitré”, dirigido pelos padres Josefitas, onde permaneceu até 1897, quando retornou à Quixadá com o diploma de Engenheiro Agrônomo.
Assim formou-se uma segunda geração de fazendeiros, mais culta e mais exigente.

A decadência do Café e o pequeno CICLO da BORRACHA na Serra de Baturité

Depois de decorridos cinqüenta anos, a produção cafeeira da Serra começou a declinar. A terra cansada, o solo desnudo e íngreme, já não retinha os nutrientes necessários para manter os cafezais que foram aos poucos definhando enquanto toda a economia serrana perecia. Nos roçados abandonados nascia em profusão uma nova planta, a MANIÇOBA (Manihot glaziovii, Muell.Arg), uma euphorbiaceae, parente silvestre da mandioca, produtora de LÁTEX, também chamada maniçobeira, nativa das serras cearenses. É ainda um bio-indicador de mata secundária, ou seja, é típica de regiões degradadas, onde a mata original foi destruída. Por essa época, a borracha era o carro-chefe da economia amazonense (século XIX).
Os cafeicultores falidos buscavam alento na alvissareira ideia de produzir borracha natural a partir da nova planta que surgia abundantemente nas falhas dos roçados. A possibilidade de se extrair e comercializar um látex semelhante ao da seringueira, no maciço de Baturité, gerou uma grande expectativa também nos investidores estrangeiros que logo apareceram. Entre eles, o Banco de Londres (Casa Inglesa) e a Casa Boris (Boris, Frères et Cie.).





No entanto, desde 1876 milhares de mudas de seringueiras eram levadas da Amazônia para o sudeste da Ásia, onde se adaptaram muito bem e logo começaram a produzir um látex de excelente qualidade, muito superior ao que era produzido ali. Assim, ainda no início do século XX começou a decadência do nosso breve CICLO da BORRACHA”. A concorrência era desigual com a borracha dos asiáticos, muito superior e mais barata que a nossa.
Esses dois grandes centros capitalistas sediados em Fortaleza, aproveitando-se da falência dos cafeicultores da Serra, adquiriram deles muitas propriedades em todo o Maciço de Baturité. Vislumbravam uma oportunidade única de grandes lucros com o advento da borracha que seria extraída naquela região, aliada à facilidade do transporte através da estrada de ferro até o porto de Fortaleza. Mas logradas as expectativas, apressaram-se em vender os sítios a preços módicos e financiados a longo prazo. Por essa razão, muitas propriedades da Serra, inclusive o Sítio São Luis, passaram pelas mãos desses investidores, principalmente dos franceses, da CASA BORIS.

O SEGUNDO CICLO do CAFÉ na Serra de Baturité

Quando já se julgava decretada a extinção, pelo esgotamento, da cultura cafeeira na Serra de Baturité, surgiu o remédio salvador: a arborização dos cafezais pelas ingazeiras e pelo camunzé. A sombra dessas árvores não só minimizava as intempéries do sol como cobria o solo com humosa camada de folhas decompostas, fertilizando e restituindo à terra desgastada e estéril  a seiva necessária para reviver os velhos cafeeiros que renovaram e floriram. Foi uma verdadeira ressurreição. Antigos roçados plantados no Sítio Guaramiranga em torno de 1849, foram replantados e arborizados em 1904, pelo Coronel Chichio (meu bisavô materno), como relata o Dr. Esperidião de Queiroz Lima, seu cunhado e autor do Livro Antiga Família do Sertão. Foi um novo ciclo do CAFÉ na Serra de Baturité:

Uma coisa, porém, a Serra perdeu irreparavelmente: a beleza panorâmica dos ondulados cafezais floridos, que enchia de poesia o coração dos amantes e de amor a alma dos poetas. O toldo sombrio e protetor formado pela arborização, se economicamente salvou a riqueza da Serra, pelo lado artístico estragou-lhe completamente a beleza. Mas que seria da nossa Serra, sem as leguminosas salvadoras? Talvez uma terra corroída pelas intempéries, desnuda, gretada e estéril.”
(Esperidião de Queiroz Lima – Antiga Família do Sertão)

A Serra tendo se tornado a principal região produtora de café do Ceará, detinha 2% da produção brasileira, competindo com todo o café produzido no sul do país. Famoso por seu aroma e sabor: “é o melhor café do mundo”. (1ª Edição Folha de São Paulo, 17/10/1959). Há relatos de que o café produzido no Maciço de Baturité era um dos mais apreciados nas cafeterias francesas. E de tal forma a nossa produção cafeeira incomodou os sulistas que, por volta de 1960, quando o país teve uma super safra de café, o IBC – Instituto Brasileiro do Café chegou à Serra e começou a divulgar um novo tipo que produziria melhor e mais rápido do que o café já aclimatado ali naquela região. O mesmo IBC oferecia ainda uma boa quantia em dinheiro para que se erradicassem as antigas plantações e no lugar delas se plantassem as novas mudas que eles entregavam gratuitamente, com um relevante detalhe: os proprietários que se dispusessem a arrancar e refazer seus velhos roçados, recebiam em moeda corrente, a título de incentivo, alem das mudas necessárias, o equivalente a “cinco vezes” o valor da terra nua. Ou seja, seria vender a terra por um valor igual a cinco vezes o seu real valor, e ainda continuar dono dela. Não só muitos roçados foram arrancados, destruídos e queimados, como grandes áreas de mata foram derrubadas para que se plantassem esse novo café que não carecia de sombreamento, conforme eles asseguravam.




Meus avós maternos:
Arcelino (Queiroz) de Mattos Brito
e Noemi Lopes de Mattos Brito,
proprietários do Sítio BREJO,
em Guaramiranga (CE).



A Serra de Baturité e o Sítio São Luis

A Serra de Baturité compõe uma paisagem de exceção no contexto geo ambiental do semi-árido cearense. Pela sua altitude e localização, próxima ao litoral, recebe os ventos oriundos do Oceano Atlântico, o que lhe propicia a formação de ambiente úmido e clima ameno, mesmo durante o verão.
Tudo isso aliado à pequena distância que a separa da capital do estado, vem aumentando o interesse e a procura pelas terras da Serra, que desde o início de sua ocupação com as primeiras lavouras vem sofrendo um crescente processo de degradação. A comercialização de terrenos e sítios, sobretudo nas áreas onde a topografia é mais acidentada, evidencia que, tanto a prática da agricultura como a especulação imobiliária têm causado drásticas e irreversíveis transformações em seu ecossistema.

Infelizmente, esta bela floresta está muito reduzida, quase completamente destruída pelas exigências agrícolas; por toda parte foi substituída pelos cafezais e canaviais ou pelas pobres capoeiras que encimam as colinas ou as encostas desabrigadas. Todavia ainda há amostras da mata primitiva, honesta e deliberadamente conservada em escassos sítios, senão fora de acesso econômico dos lavradores, isto é, grotas profundas, nos recantos onde o trabalho agrícola se torna perigoso e difícil. Mesmo onde a mata foi destruída, grandes árvores ainda restam, aqui e ali, testemunhando a pujança das velhas florestas”.
(Thomaz Pompeu Sobrinho, em 1938)

Para regulamentar e fiscalizar o uso do solo na região criou-se uma unidade de conservação: a APA (Área de Proteção Ambiental) do Maciço de Baturité – a primeira e mais extensa Área de Preservação Ambiental criada pelo Governo do Estado do Ceará – através do Decreto estadual Nº 20.956, de 18/09/1990, retificado pelo Decreto Nº 27.290, de 15/12/2003. Abrangendo uma área em torno de 32.690 hectares, delimitada pela cota de 600 metros acima do nível do mar, teve como principal objetivo intervir no uso desordenado dos recursos naturais que aceleram o processo de degradação ambiental.
O Maciço de Baturité, devido a esse isolamento físico ocasionado pelas características climáticas e formações geológicas, próprias da Serra, detém em seu território a existência de uma grande variedade de espécies, animal e vegetal, típicas da Floresta Amazônica e da Mata Atlântica. Guaramiranga e Pacoti por se encontrarem numa altitude superior à cota de 600 metros, são os dois únicos municípios que têm seus territórios inteiramente inseridos na APA.
Mas com a falência dos cafeicultores, muitos dos antigos proprietários venderam ou abandonaram seus sítios e migraram para outras cidades, a maioria para Fortaleza.

Aqui cabem as palavras do Dr. Esperidião, escritas no Proêmio de seu livro, Antiga Família do Sertão, editado em 1946:

Com a migração das grandes famílias rurais para as cidades, surgem em terras distantes e com nomes diversos, novas gerações, que não mais encontram, na agitação da vida moderna, nem oportunidade nem tempo de ouvir dos avós as singelas histórias de seus remotos antepassados, como eram antigamente contadas nos costumeiros serões domésticos nas fazendas; e vão assim perdendo o gosto e o interesse pelas questões de linhagens, alheando-se dos parentes, que pouco a pouco se tornam meros desconhecidos.
Em verdade, essas gerações novas não sentem mais o entranhado amor que prendia à terra as antigas famílias sertanejas, enraizadas na propriedade agrícola, que lhes garantia a estabilidade, o conforto e a independência, de que tanto se orgulhavam. Separando-se da terra, desligam-se insensivelmente dos laços de parentesco e de amizade, que prendem entre si os descendentes dos mesmos troncos ancestrais, irmanados pelo mesmo sangue e pelo culto das mesmas tradições...

Desde então a Serra vem passando por profundas mudanças. A nobre cultura do café, exatamente como aconteceu no sul do país, enquanto enriqueceu a muitos empobreceu a outros, como num círculo vicioso.
A cafeicultura aos poucos foi sendo abandonada, sobretudo porque se tornou caro e inviável todo o procedimento desde o plantio, colheita, secagem, pilagem até a comercialização do produto final. Aliado a tudo isso, surgiram as pragas que se proliferavam e dizimaram muitos cafezais em toda a Serra. A mão de obra especializada ficou escassa e com o passar dos anos, esses cafezais foram sendo substituídos por outras culturas: bananeiras, hortaliças e ainda a cultura dos chuchus plantados em forma de latadas (uma espécie de caramanchão). O município de Pacoti é hoje o maior produtor de chuchu do nordeste. Os engenhos de cana, produtores de aguardente e rapadura começaram a parar pela falta da lenha. Era vital preservar as nossas matas. Assim os baixios anteriormente ocupados com as plantações de cana-de-açúcar deram lugar às hortaliças mais nobres (alface, brócolis, couve-flor, ervilha, acelga, espinafre, repolho, alho-poró, etc.) de produção muito mais rápida e fácil comercialização. Grandes e pequenas floriculturas começaram a surgir na Serra como um negócio alvissareiro.
O Sítio São Luis ainda mantém preservados antigos roçados de café, alguns com mais de cem anos, mas entre as suas principais culturas estão as plantações de banana, de chuchu e de hortaliças.
A especulação imobiliária, no entanto, aliada a aculturação do povo, desinformado, carente de emprego e de outras atividades ligadas à terra e à agricultura, teve conseqüências drásticas com a efervescência turística que acontece principalmente dentro dos municípios de Pacoti e Guaramiranga. As grandes propriedades são hoje retalhadas em pequenos sítios ou chácaras de veraneio, dando lugar a verdadeiras mansões, grandes condomínios, construções suntuosas a cada curva da estrada.
Com isso, as delimitações das antigas propriedades que antes eram feitas por árvores nativas (pau d’arco, aroeiras, mangueiras, jaqueiras, etc.) deram lugar às cercas de 12 fios de arame farpado com estacas de concreto, o que vai de encontro a um dos itens que rege a cartilha da SEMACE (Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Ceará), ou seja, “não interferir no funcionamento dos refúgios ecológicos”. Essas cercas construídas nos limites das terras sem nenhum critério impossibilitam completamente o livre trânsito dos animais silvestres, responsáveis em grande parte pela disseminação da nossa flora e fauna, que apesar de todas as adversidades e agressões sofridas por este minúsculo oásis, resistem e sobrevivem espécies vegetais e animais que só existem nessa área do planeta.

* * *


GUARAMIRANGA (Esperidião de Queiroz Lima)

Embalada nas matas colossais,
Repousa a irmã querida da alvorada,
Guaramiranga, a virgem coroada
Com flores de cafés e laranjais.

Ninho de amor à sombra dos rosais,
Onde vive a serrana a ser amada,
Mais feliz, mais ditosa que uma fada
Viveria em palácios ideais.

Linda flor, perfumosa violeta,
Que a nuvem, como enorme borboleta,
Beija, sugando o néctar que ela encerra.

Uma ponta de luz do Paraíso,
Que tombando, brilhante, num sorriso,
Se engastou, para sempre, aqui na terra.



* * *

Houve um tempo em que os cafezais da Serra eram plantados a céu aberto, com belas floradas e grandes colheitas. Os pequenos arbustos brancos de flores ou vermelhos de cerejas formavam o encanto e a riqueza da nossa terra.
Muitos relatos da época dão conta de que era realmente um espetáculo de rara beleza, não só pelo perfume que emanava de suas flores, mas pelo contraste do verde das matas com a brancura das encostas onduladas dos morros, que delas se cobriam na época da floração.
Essa beleza “enchia de poesia o coração dos amantes e de amor a alma dos poetas”.
O irreverente escritor e poeta cearense, José Quintino da Cunha, fazia costumeiras visitas ao seu grande amigo e colega, Coronel José Marinho Falcão de Goes (meu avô paterno), proprietário do Sítio Pau do Alho, em Pacoti.


Certa noite, numa dessas suas visitas, enquanto o poeta contemplava embevecido, no alto do antigo e velho Sobrado, uma lua cheia e branca clareando os cafezais floridos, compôs o poema com o qual presenteou, como de costume, o seu anfitrião. O irmão do poeta, João Quintino da Cunha, colocou uma melodia nos seus versos, e os seresteiros da época recitavam e cantavam em serenata a COMUNHÀO da SERRA, o que evoca a minha infância quando minha mãe, cantarolando essa canção, me embalava, a mim e aos meus irmãos.

COMUNHÃO DA SERRA - José Quintino da Cunha (1875-1943)

Ontem, à noite, eu vi a minha Serra,
Como uma virgem, trêmula, contrita,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
Uma hóstia do Céu, hóstia bendita.

Como foi para vê-la assim? De neves
Era o véu transparente, que a cobria,
Vendo-se aqui e ali negros tons leves,
Do negro que do verde aparecia.

Tons negros, talvez restos, que os comparo,
De alguma nuvem torva, esfacelada.
Por Deus, que só queria o Céu bem claro,
Porque ia dar a hóstia consagrada!

O cafeeiral, que rebentava em flores,
A grinalda na fronte lhe botava;
E o frio, rebento dos temores,
No seu íntimo, o frio rebentava!

Assim a Natureza era o sacrário,
De onde Deus dava a comunhão radiosa
À Serra! E era o Céu o grande hostiário
E era a lua, a hóstia luminosa.

E digam que eu não vi a minha Serra,
Como uma virgem, de grinalda e véu,
Recebendo de Deus daqui da terra,
A hóstia luminosa lá do Céu!



* * *






Considerações finais

Eu descendo das primeiras famílias que se estabeleceram e fincaram suas raízes na Serra de Baturité: os Queiroz e os Barreiras. Tive ainda o privilégio de pertencer à última geração de fazendeiros que viveram entre a Serra de Baturité e o Sertão de Quixadá e de Quixeramobim.
Muitas dessas histórias aqui relatadas, eu ouvi de pessoas mais velhas, de meus avós, de minhas tias, de minha mãe, do Dr. Vinicius de Barros Leal, mas, sobretudo de meu pai, José Ellery Marinho de Goes (Zelito).

Lembro bem, quando eu era criança e não entendia exatamente o que era esse ir e vir, da Serra para o Sertão, a diferença entre o que era SÍTIO e o que era FAZENDA.
E com muita sabedoria meu pai me ensinou:

Sítio é um lugar para se plantar, e se cerca o que se cria;
Fazenda é lugar de se criar, e se cerca o que se planta.”

A HISTÓRIA, que é o maior patrimônio de um povo, acaba perdendo suas raízes e, enquanto antigos valores são substituídos pelos novos freqüentadores e proprietários da Serra, perdemos nossos vínculos com a terra que nos viu crescer e submergimos no anonimato de seus registros. Daí a razão desses escritos.


Claudia Maria Mattos Brito de Goes


Fonte de pesquisa:

1 – Esperidião de Queiroz, Antiga Família do Sertão.
2 – Esperidião de Queiroz Lima, Reminiscências (inédito)
3 – Vinicius de Barros Leal, História de Baturité.
4 – Francisco Tavares, Maciço de Baturité
5 – Francisco Tavares, Pacoti: Um pouco da história (Publicação local)
6 – Ana Maria Moreira de Souza, Quem Não Souber Ler Não Apague

Fotografias:
Janus Lonngren, Laura de Goes, Claudia de Goes

Texto, pesquisa e acervo fotográfico:
Claudia Maria Mattos Brito de Goes.













O SÃO LUIS


"Outros que tenham com mais luxo o LAR,
a mim me basta: SAÚDE e ALEGRIA...
ÁRVORES, FILHOS (netos!) e a PAZ desse lugar!"
(Claudia de Goes)

A HISTÓRIA:

Em 1858 o capitão da Guarda Nacional JOSÉ ALEXANDRE CASTELLO BRANCO comprou o Sítio Canna-Brava”, pertencente ao comerciante português Luiz Ribeiro da Cunha, estabelecido em Baturité, "pela quantia de trinta e dous contos de reis". Segundo registro em antigas escrituras, o Sítio Canna-Brava situava-se “na Serra de Santa Anna com todas as benfeitorias assim como casas, plantações, engenho de ferro, caldeiras, duas juntas de bois, moendas, e as partes das terras compradas dos herdeiros dos finados Mathias Rodrigues d’Andrade e sua mulher.
Ao Sítio Canna-Brava” foram anexadas os sítios, “Santanna” e “Castelo”, terras que já pertenciam ao Capitão José Alexandre... E assim ele formou a grande propriedade que denominou “SÍTIO SÃO LUIS”.
No antigo Sítio Canna-Brava funcionava há tempos um grande Engenho de cana de Açúcar com intensa produção de aguardente e rapadura, conhecido e famoso como "ENGENHO SÃO LUIS", desde os tempos de seu primeiro dono, Luis Ribeiro da Cunha. O Engenho centralizava muita mão de obra e movimentava grande parte da economia da região, e atribui-se a isso o fato do Coronel José Alexandre dar o nome do antigo ENGENHO SÃO LUIS à nova propriedade formada por ele: SÍTIO SÃO LUIS”.
(Ver escritura original transcrita no final do Blog)

Em 1869 o Capitão José Alexandre Castello Branco vende o SÍTIO SÃO LUIS” a seu irmão, Coronel João Pereira Castello Branco,por 13:000$000 (treze contos de réis).
De acordo com a história documental, é provável que o casarão tenha sido construído entre 1870 1880 (pesquisas e documentos do historiador e Professor Levi Jucá).

O SÍTIO SÃO LUÍS foi uma das mais ricas propriedades da Serra de Baturité, onde João Pereira Castello Branco residiu com a família por muitos anos até o seu falecimento em Baturité em 01/11/1900.

Com sua morte e a decadência do CAFÉ na Serra, a propriedade, foi entregue pela família à firma de investidores franceses "Boris & Fères", junto a qual se encontrava hipotecada.

Os irmãos Boris (Messieurs BORIS FRÈRES) entregaram a propriedade, através de contrato de arrendamento, ao Coronel José Cícero Sampaio (Coronel Zeca), proprietário do "Sítio Girau" onde residia (vizinho ao Sítio Arvoredo, em Pacoti). 



Coronel ZÉCA, como era conhecido, recebeu essa patente da Guarda Nacionalcriada em 18 de agosto de 1831, durante o Período Regencial e teve grande importância nos meses seguintes à abdicação de D. Pedro I.
Era um líder politico influente e foi o primeiro intendente de Pacoti, cargo equivalente ao de Prefeito. Em 1922 ele faleceu ficando a administração do Sítio São Luís com seu filho único, Luís Cícero Sampaio, recém formado numa das primeiras turmas de Direito da Faculdade de DIREITO do Ceará. Época em que a Faculdade, que foi a primeira Instituição de ensino Superior do Ceará, funcionava no andar superior do antigo prédio da Assembleia Legislativa, hoje Museu do Ceará.


Dr. Luis Sampaio foi Promotor em Baturité e, seguindo os passos de seu pai na política, exerceu por três vezes o mandato de Prefeito de Pacoti.

Enquanto esteve à frente da Promotoria de Baturité, descia a Serra a cavalo, pelo menos três vezes por semana, até aquela cidade.


Em 1923  ele casou com sua prima, Maria Carmen Nepomuceno Sampaio e permaneceram por um ano morando com sua mãe, dona Mará, tia e madrinha de Dona Carmen, no Sítio Girau.


Em 1924 ele negocia a propriedade com os "Boris & Fères", mas a transação da compra do Sítio só foi finalizada em 31 de julho de 1930, pelo valor de 40 contos de Réis, pagos em grande parte com o dinheiro do CAFÉ produzido ali, e ainda com borracha de Maniçoba (Manihot glaziovii Muell. Arg. da FAMILIA Euphorbiaceae) couro de boi.


Traslado do Contrato de Compra e Venda do Sitio São Luis


Dr. Luis e dona Carmen 
em 1924 quando eles
chegaram pra morar no casarão do Sítio São Luis.

O casal não teve filhos mas criou como filho o sobrinho Onofre Medeiros Nepomuceno, filho de Hilda e Francisco Nepomuceno, irmão de dona Carmen. Onofre, meu sogro, morreu cedo, em 1985 com 55 anos, vítima de enfisema pulmonar agudo.
Quando Dr. Luis faleceu em 1965, deixou em testamento essa propriedade para dona Carmen, que aí viveu com seu neto e bisnetos durante muitos anos, falecendo aos 97 anos de idade, no dia 8 de maio de 2000, em Fortaleza.

Em testamento também recebi de Dona Carmen a honrosa missão de conduzir o destino dessa propriedade – o Sítio São Luis, do qual tenho cuidado com especial carinho, preservando suas memórias e resgatando suas histórias, apesar de todas as intempéries...

Essa foto mostra a arquitetura original da casa, com suas "PLATIBANDAS".

NOVOS TEMPOS

O casarão do Sítio São Luis, em Pacoti,
constitui hoje o melhor exemplo de arquitetura colonial da Serra de Baturité, localizada na região norte do estado do Ceará.



Em meio ao intenso verde da exuberante vegetação que cobre a Serra de Baturité, a uma altitude de 679m acima do nível do mar (cota da soleira da porta da frente), em Pacoti (Ceará, Brasil), encontra-se uma majestosa construção de imensas colunas brancas que se fecham em arcos simétricos, como uma fortaleza.

A construção é obra de arquitetos holandeses vindos de Recife.
Duas vilas de casas de moradia foram erguidas para abrigar os operários da obra que teria demorado cerca de vinte anos até ser concluída pelo coronel João Pereira Castello Branco que ali viveu com seus dez filhos...

Feita por mãos de escravos, impressiona pelo porte arrojado de suas belas colunas (30 ao todo), admirável pela estrutura sólida de seus arcos de quinas abauladas, toda erguida em tijolo e barro, feitos ali mesmo, com argila escura e queimados em fogo artesanal.

Foto de Janus Lonngren

As paredes altas são características dos antigos casarões da época colonial que usavam tochas de fogo para iluminar o seu interior. Todas as portas e janelas são de cedro maciço, retirado da própria mata que ainda existe no seu entorno.
A água pura e cristalina que sai gelada em suas torneiras, vem de uma nascente localizada no alto do morro atrás de casa,
onde chega pela força da gravidade.
Até alguns anos atrás esse encanamento era original,
feito com bambus, nativos da região serrana. 



Na enorme cozinha ainda se pode ver um antigo "CILINDRO" de oxigênio  que fazia parte da Central de aquecimento de ÁGUA, um sistema bem artesanal que funcionou até o final da década de 1990. Era usado para armazenar a água que passava por dentro dele e seguia por um cano de ferro galvanizado até a SERPENTINA no interior do FOGÃO a LENHA. Depois de aquecida, essa água retornava ao cilindro e se misturava com a água fria. Esse ciclo se repetia várias vezes até aquecer completamente toda a água que seguia quentinha para o chuveiro e os lavatórios.


Fogão antigo reformado muitas vezes... 


A maioria dos fogões a lenha da Serra tinham esse sistema de "serpentina".
E tanto esses fogões como as serpentinas, foram idealizadas, projetados e montados pelo Mestre José Xavier Ribeiro Maia, ou "Mestre ZÉ", uma figura humana extraordinária que tive o privilégio de conhecer.
Homem simples de notável inteligência, engenheiro nato que jamais esteve numa universidade, no entanto, foi ele o construtor de muitas casas e engenhos, açudes e barragens, na Serra e no sertão.
Ele montou as primeiras máquinas de pilar café que chegaram à Serra, projetava os engenhos, desde a sua estrutura e coberta, consertava caldeiras de ferro, ajustava moendas e construía rodas d’água, como ninguém. Reparava motores diesel, caldeiras a vapor e construía os tonéis onde se armazenava a aguardente, calculando de forma exata e precisa a sua capacidade de armazenamento.
Era músico e compositor, tocava trompete e clarinete, alem de escrever poemas.
Acredito que ele tenha convivido com mais de três gerações de proprietários da Serra. Começou com meu bisavô materno, o coronel Chichio (Francisco de Mattos Brito), no sítio Guaramiranga, onde, segundo ele, moço ainda, "ficou muito atraído para a arte da mecânica, ao ver o rodeiro girando dentro do trilho, pilando café, acionado por uma roda de madeira dentada, numa estralagem monótona, acionada por um motor a caldeira vapor".
Sei que trabalhou com meu avô paterno, José Marinho Falcão de Goes, nos sítios Logradouro, Pau do Alho e também na Fazenda Cachoeira, em Quixeramobim. E eu mesma, quando menina, o vi trabalhando ainda para meu avô materno, Arcelino de Mattos Brito, no sítio Brejo, depois com meu pai, Zelito (José Ellery Marinho de Goes), e por último, esteve por inúmeras vezes no Sítio São Luis, consertando geradores, caldeiras do engenho, máquinas de pilar café, fogão e outras coisas mais, quando eu aí morava depois que me casei...
Fica aqui registrado nosso tributo a esse honrado e saudoso
Mestre Zé Xavier.




Para viabilizar o início da obra do casarão, os holandeses projetaram a construção de uma pequena barragem nas águas do Rio Pacoti, que demarca os limites em uma das extremas do sítio.
Através de uma porta d’água de puro bronze fincada em um dos lados da parede do pequeno reservatório, sai um canal de irrigação que circunda toda a área em volta da casa e segue, dividindo-se em vários sub-canais, percorrendo toda a extensão do vale à frente do casarão.
Durante muitas décadas esse canal,
conhecido como o Canal dos Holandeses,
impulsionou a roda d’água do antigo engenho de cana,
ao lado da casa grande.




Sítio São Luis tem hoje uma área remanescente de 210 ha,
com mais de 40 ha de mata preservada
e alguns núcleos de mata nativa totalmente intacta.
Conserva ainda antigos roçados de café,
alguns com mais de cem anos de idade.



"FAXINA" (Terreiro) de secagem do CAFÉ


O velho casarão já foi cenário de dois longas-metragens:

Em julho de 1998, foi o principal cenário do projeto cinematográfico de Florinda Bolkan:
Eu Não Conhecia Tururu”.
Em junho de 2007, serviu de locação para o primeiro longa-metragem de época
rodado e produzido no Ceará:
Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito”,
de Glauber Filho e Joe Pimentel.


A imagem do casarão foi assim preservada e imortalizada pela maravilhosa
ARTE do CINEMA.

O Sítio São Luis mantém a tradição de resgatar a memória de seus antepassados, integrantes de algumas das mais tradicionais famílias da Serra, preservando costumes, fatos e feitos que recordam os momentos alegres e felizes por eles vividos. São exemplos de luta, de lealdade, de união e de coragem, de vidas simples mas de ricas virtudes. Essas histórias, sempre recontadas entre a família, são assim preservadas e repassadas às novas gerações.


A propriedade pertence hoje a
Claudia Maria Mattos Brito de Goes.


Vista aérea da propriedade
Fotos: Comandante Arcelino de Mattos Brito Neto


Vista aérea
Imagens de Daniel de Goes Nepomuceno




* *  *
Coordenadas do Sítio São Luis:
Localização: Distrito de Santana, município de Pacoti, no topo da Serra de Baturité, região norte do Estado do Ceará.
Coordenadas Geográficas: 4.135278 – 38.532610 (Latitude, Longitude)
Distância de Fortaleza: 120 km.
Altitude: 679m acima do nível do mar (cota da soleira da porta da frente)
Como chegar: sair de Fortaleza pela CE-060 e seguir até Baturité. Subir a Serra, passar por Guaramiranga e seguir em direção a Pacoti. Na saída da cidade de Pacoti, seguir à direita, em direção ao distrito de Santana, a 5 km do centro da cidade, e chegar ao Sítio São Luis.
Outra opção: sair de Fortaleza pela estrada de Maranguape e seguir pela CE-065, passando por Palmácia, até Pacoti.

* * * * * * * * * * *

Escritura do Sítio São Luis, assim denominado a partir da compra e junção dos sítios Cana-brava e Santa Anna (traslado original)
Escriptura que fazem e assignão Luis Ribeiro da Cunha e sua mulher Dona Maria Carolina Vieira da Cunha, por seo procurador Floriano Vieira Perdigão, do Sitio Cana-brava em sima da serra, e as partes que comprarão aos herdeiros do finado Mathias Rodrigues d’Andrade e sua mulher, com as benfeitorias que nelle se acharem, feita ao comprador José Alexandre Castello Branco, pela quantia de trinta e dous contos de reis de que pagou a Siza correspondente como abaixo se declara. = Saibão quantos esta virem que no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oito centos e cincoenta e oito, neste Sitio Santa Anna de Termo da Villa de Baturité Cabeça da Comarca da digo Baturité, em casas de residência de José Alexandre Castello Branco, a onde veiu eu Tabellião, e aos trinta dias do mes de junho do dito anno, edeu de ahi forão prezentes partes justas, havidas e concertadas, estipulantes e acceitantes, de uma como vendedores Luis Ribeiro da Cunha e Sua mulher Dona Maria Carolina Vieira da Cunha, por seu procurador Floriano Viera Perdigão, e da outra como comprador José Alexandre Castello Branco, conhecidas de mim tabellião de que dou fé, e pelo procurador dos vendedores foi dito em prezença das testemunhas abaixo assignadas que de hoje para sempre vender por parte dos constituintes o Sitio Cana-brava na Serra de Santa Anna com todas as benfeitorias que nella se achão, assim como casas, plantações, engenho de ferro, caldeiras, duas juntas de bois, moendas, e as partes das terras compradas dos herdeiros dos finados Mathias Rodrigues d’Andrade e sua mulher, cujos títulos os vendedores entregão ao comprador, não dando as estremas por estarem medidas no mesmo Sitio Cana-brava comprado a Feliz Antonio de Sousa Barros e sua mulher, e a Manoel Gomes Barreto e sua mulher, cujas estremas dignará o comprador na forma que se acha declarado nos respectivos títulos de compra que lhe são entregues por elles vendedores, cujas terras e suas benfeitorias vendem pela quantia de trinta e dous contos de reis que neste acto lhe foi entregue em letras pagáveis em prestações e recebidas por elle procurador dos vendedores, disse que por parte dos constituintes, desde já transfere no comprador todo o domínio, direito, acção, e posse que n’elle tinhão nu dito Sitio partes das terras e suas benfeitorias, e lhe dá licença para com Authoridade de justiça ordem della tome posse quando quizer do referido Sitio, partes de terras, e suas benfeitorias, ide a não tornar seos constituintes se constituírem em possuidores em nome do comprador. Disse mais que se os constituintes se obrigão afazerem esta venda boa e a defenderem ao comprador quando este os chamar a autoria, e logo me apresentou a procuração bastante de theor seguinte = Numero vinte e cinco Reis Cento i Sessenta. Pagou Cento i Sessenta reis de sello. Ceará vinte d’Abril de mil oito centos e cincoenta e oito. Gurgulino Raposo = Procuração bastante que fazem Luiz Ribeiro da Cunha, e sua mulher Dona Maria Carolina Vieira da Cunha. = Saibão quanto este publico Instrumento de Procuração Bastante virem, que no anno do Nascimento di Nosso Senhor Jesus Christo de mil oito centos cincoenta e oito, aos vinte e oito dias do mês de junho do dito anno, nesta Cidade de Fortaleza Capital da Província do Ceará Grande ma casa de Luis Ribeiro da Cunha onde fui vindo eu Tabellião Publico, Senso ahi me foi presente o mesmo eSua mulher, bom conhecidos de mim Tabellião de que dou fé, epor elle me foi dito em presença das testemunhas abaixo assignadas que na milhor forma via de direto Constituem por seos bastantes procurador a Floriano Vieira Perdigão, Antonio Francisco da Silveira Junior, João Pereira Castello Branco, e Marçal Gomes da Silveira, aos quaes dão poderes especiais para fazerem a venda de seo Sitio em Santa Anna na Serra de Baturité a José Alexandre Castello Branco, pela quantia de trinta e dous Contos de reis, com o prazo de um a oito annos com todas as condições especificadas na Carta d’ordem que escrevem elles Constituintes nesta data. E a elles insolidem ou a cada de per si dá poderes para que em nome d’elle Outorgante possa em qual quer juízo ou Tribunal d’este Império e Reino estrangeiro requere toda Sua justiça em todas as Suas causas presentes ou fucturas, receber dinheiro de quais quer mãos, Cofres, Thesourarias, depósitos públicos, eparticulares; podendo tratar de conciliações perante os Juizes de Paz respectivo para cujo fim lhe concede os mais amplos e illimitados poderes; fasendo citar, propor acções, libellos, recepções, embargos, Suspenções, e outros quais quer artigos, contrariar das provas, inquirir e contestar testemunhas, jurar decisória ou supletariamente na alma delle outorgante, e deixar este instrumento na alma das partes, assignar autos, requerimentos, protestos e termos, a inda o de confissão louvação Desistência, aVerbar a quem for Suspeito, e assignar os respectivos artigos, apellar, agravar ou embargar qual quer Sentença ou despacho, eseguir aquelles recursos a inda nas Superiores instancias, tirar Sentenças, requerer aexecução dellas, Segrustros, embargos, penhoras, arrematações, adjudicações, eposse, etodas as precatórias necessárias vir com embargos de terceiro senhor ou possuidor, sem juntar quais quer documento, e tonal-as receber; variar acções, intentar outras de novo, substabelecer esta ou usar d’ella. E tudo quer for feito cobrado por elle procurador e substabelecidos insolidem promette por firme evalioso por sua pessoa ebens, reservando para si a nova citação. De como assim o disserão assignarão com as testemunhas abaixo.
Eu Miguel Severo de Sousa Pereira, Tabellião Publico que o escrevi e assigno em publico e raso de que uso. Em testemunho da verdade. O segundo Tabellião Publico Miguel Severo de Sousa Pereira, Luis Ribeiro da Cunha, = Maria Carolina Vieira da Cunha, = Bernardo José Pereira = José Joaquim de Sousa Vinhas. = E logo pelo comprador José Alexandre Castello Branco, foi dito que acceitava a presente escritura pela mesma forma que lhe era passada, i me apresentou o bilhete de Siza de theor seguinte = Como procurador das Arrematantes dos Impostos geraes d’esta Villa e Município fico recebido a José Alexandre Castello Branco a quantia de um conto novecentos e vinte mil reis, de Siza correspondente a trinta e dous contos de reis por quanto comprou o Sitio São Luiz a Luiz Ribeiro da Cunha, e Sua mulher, por ter recebido passo o presente. Baturité trinta de junho de mil oito centos cincoenta e oito. Silveira Junior. = Depois de escripta esta eu Tabellião ali perante elles que reciprocamente outorgarão, acceitarão e assignarão, e eu Tabellião a outorguei e acceitei em nome doa ausentes e pessoas a quem pertencer possa, sendo a tudo presentes por testemunhas Francisco José Rodrigues Santa Baia, e Manoel Antonio Nogueira, todos maiores da excepção, e conhecidos de mim Antonio Rodrigues de Moura. Tabellião que a escrevi. = Floriano Vieira Perdigão = José Alexandre Castello Branco = Francisco José Rodrigues Santa Baia = Manoel Antonio Nogueira = Nada mais se continha em dita escriptura i ao livro de Notas nu reposto, escrevi i assignei com meos signaes rasos de que uso Neste Sitio Santa Anna no mesmo dia, mez, e anno assima declarados. Eu Antonio Raulino de Moura Tabellião que o escrevi e assignei.

Em fé de Verd.e
Antonio Raulino de Moura


* * * * * * * * * * *


O Longa metragem
Eu Não Conhecia Tururu,
lançado em 2002, foi inteiramente filmado no Ceará.
Teve roteiro e direção da atriz cearense Florinda Bolkan, e Amilcar Claro como diretor assistente.
Félix Monti foi o diretor de fotografia, com André Scarlazzari na direção de Arte e Owaldo Lioi na cenografia.

O elenco:
Maria Zilda Bethlem
Florinda Bolkan
Ingra Liberato
Suzana Gonçalves
Valentina Vicario
Fernando Alves Pinto
Herson Capri
Lídia Matos
Duze Nacarati
Grace Gianoukas
Luisa Falcão
Marta Pessoa

O filme conta a história de uma família de classe média alta que tem suas origens no Ceará e se reúne para o casamento de uma das quatro irmãs (Florinda Bolkan, Maria Zilda Bethlem, Suzana Gonçalves e Ingra Liberato)
Duas dessas irmãs moram no exterior e, após anos de separação provocada pelas próprias circunstâncias da vida, encontram-se na antiga propriedade da família (casarão do São Luis), onde mora a mãe viúva (Lídia Matos) com uma tia solteirona (Duze Nacaratti). O retorno das filhas e o reencontro com as amigas, mostra a descoberta de diversas formas de relação afetiva, dentro do universo feminino.


Cena com Lídia Matos na varanda...

Cena com Lídia Matos, Duze Nacaratti e Florinda Bolkan (Quarto da frente)
Cenário na Sala de Visitas

Florinda filmando a cena de "reisado"
que mostra uma passagem do tempo...
Com as quatro irmãs ainda crianças...
E elas adultas, anos depois, na mesma janela...
Florinda Bolkan, Suzana Gonçalves, Maria Zilda e Ingra Liberato
Cena de um almoço na Sala de Jantar






Diretor Amilcar Claro com Florinda e Ingra Liberato
Quarto de Eleonora (Florinda Bolkan)


Ingra Liberato
Fernando Pinto

Ingra Liberato e Daniel de Goes Nepomuceno

Florinda Bolkan - Produtora, Diretora e Atriz nesse filme.
Oswaldo Lioi - Direção de Arte



André Scarlazzari - Direção de Arte




Suzana Gonçalves
Lídia Matos
Florinda e Laura
Duze Nacaratti e Laura

Florinda e Fernando
Maria Zilda Bethlem,
Com esse filme, ganhou o Kikito de Melhor Atriz,


* * * * * * * * * * *


 O projeto cinematográfico

"Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito",
é o primeira longa metragem de época rodado e produzido no Ceará.
A produção utilizou reconstituições e depoimentos para transitar por uma história repleta de exemplos edificantes desse ilustre cearense radicado desde muito jovem na cidade do Rio de Janeiro.
Médico e político, o Dr. Bezerra de Menezes, dedicou sua vida e seu amor ao próximo,  praticando o bem e se dedicando de todo o coração aos mais pobres.
Dirigido pelos cearenses Glauber Filho e Joe Pimentel, com roteiro de Luciano Klein, o filme "BEZERRA DE MENEZES" é um "docudrama" que teve tambem a participação de atores cearenses além de grandes nomes da dramaturgia brasileira, contando com a brilhante atuação do ator Carlos Vereza no papel principal, e ainda os atores Lúcio Mauro, Caio Blat, Paulo Goulart Filho e Nanda Costa.
Com a direção de arte liderada por André Scarlazzari, as gravações aconteceram entre os meses de maio a julho de 2007, e dividiram-se entre Pacoti no
Sítio São Luis,
e ainda em Aratuba (Solar da família Pereira), Guaramiranga (Convento dos Capuchinhos), Mulungu (Sítio Álvaro) e Fortaleza, seguindo depois pra Recife e Rio de Janeiro.


* * * * * * * * * *
Make in off
de algumas cenas desse último filme: 

O menino Bezerra de Menezes diante do oratório da família
Joe Pimentel e Charles Northrup revendo algumas cenas do filme.
Foto de Janus Lönngren (2007)
Elenco reunido na Varanda do Sítio São Luis
Cena do Jantar de despedida do jovem Bezerra de Menezes...
antes dele seguir para estudar Medicina no Rio de Janeiro. 
Cena com o ator cearense B. de Paiva



O ator Carlos Vereza no papel principal, assumiu publicamente sua admiração pelo médico cearense, falou de sua responsabilidade e satisfação em interpretá-lo, disse não ter nada em comum com o ilustre personagem e comentou:
"Como é que um grão de areia vai querer refletir o sol?"

Acima: fotografia do Charles Northrup feita por ocasião das gravações do filme
Bezerra de Menezes no sítio Sítio São Luís, em 2007.
Da esq. p direita:
Raquel de Goes, Cláudia de Góes, Vereza,
Gilson Leal, Laura de Goes, Fernando de Goes,
Janus Lonngren e Renata de Goes.
Nesta foto com Carlos Vereza:
Raquel de Goes Nepomuceno e Claudia Mattos Brito de Goes.


* * * * * * * * * * 

REGISTRO de VISITAS
e passagens de
AMIGOS ao
SÍTIO SÃO LUIS

Passeio na Serra - Motocicletas
19 de Março de 2012 - Segunda Feira

Relato de motociclistas em visita ao Sítio São Luis:

“Segundona, 19 de Março de 2012, feriado estadual do Dia de São José, padroeiro do Ceará. É dia de esperança matuta, pois se chover, é sinal de bom período de chuvas, segundo a tradição sertaneja.
Joarez Dallago (Tènèrè 660), Macelo Teles (BMW 1200GS), Paulo Walraven (BMW 800GS) e eu (Luiz Almeida) com minha V-Strom 650, combinamos um passeio pelas estradas que cortam a Serra de Pacoti e Guaramiranga, no Maciço de Baturité, cerca de 100km de Fortaleza.
Saímos às oito da manhã, passamos por Maranguape e demos uma parada para lanche na Ladeira Grande, depois de pegarmos uma chuvinha tipo bênção do santo do dia. A partir deste ponto o passeio começou a ficar interessante, zona rural, pouco movimento e paisagens interessantes.
Subimos a Serra pelo asfalto com centenas de curvas fechadas até Palmácia. De Palmácia começamos a rodar por estradas alternativas, a maioria de pedra tosca e em mau estado - às vezes barro molhado ou muitas pedras soltas.
No meio deste trecho Joarez me passou a Tenebrosa dele para eu experimentar. Não sei se foi porque saí da Struminha, com todo aquele peso, aro 19" e rodas de liga leve, e passei para uma moto alta, de aro 21", rodas raiadas e grande aptidão para o off road, que achei uma delícia pilotar a Yamaha. Senti-me em casa. Se a dona Yamarrenta tivesse trazido esta moto na época em que a desejei, mas tive que me conformar com uma XT660, em 2007, acho estaria até hoje com ela. Agora é tarde, a Inês é morta e a Suzuki DL650 manda!
Em Pacoti, por volta do meio dia, paramos num restaurante para a natural hidratação, uma típica panelada e um carneirinho guisado. Tudo muito bom. O garçom gentilmente procurou as informações que pedimos e seguimos para rever o Sítio São Luís, uma quase bicentenária fazenda de café, que eu havia visitado há mais de vinte anos.
Fomos muito bem recebidos pelo Gilson, da família dos proprietários, que nos deixou totalmente à vontade para conhecer e fotografar todas as dependências da casa. O mesmo Gilson sugeriu que, em vez de voltarmos à Pacoti, seguíssemos passeio por estradas vicinais até Redenção. 

Luiz Almeida é motociclista por convicção desde os anos 70. Antes mesmo de ter sua primeira moto já lia revistas especializadas enquanto sonhava poder rodar com sua própria motocicleta.”
Fotos enviadas por eles:







 
Para saber mais sobre eles, entre no site:

http://www.historiasdemotocicleta.com.br/

* * * * * * * * * * 

 
TERCEIRA CAVALGADA da SERRA de BATURITÉ
21 de Abril de 2012 - Sábado
Relato do cavaleiro Alexandre Parente referente à passagem e almoço dos cavaleiros da Terceira Cavalgada da Serra de Baturité, em sua parada tradicional no Sítio São Luis:
"Meus Caros: A terceira edição da Cavalgada da Serra de Baturité, em Guaramiranga, do Haras Chicote (Moacir Cavalcante) e Santa Clara (Beto) com o apoio de nosso querido amigo Luiz Otávio de Mattos Brito Nogueira, que viabilizou tudo foi mais uma vez sucesso absoluto.
Em um cenário de pura beleza e um clima ameno, tivemos um tempo onde não teve sol, não teve chuva forte e com isso não teve poeira, dando um toque especial no dia do cavaleiros. Apesar de decidida a data de última hora, quem queria ir conseguiu se organizar e formou uma tropa de 47 cavalos. Destaque para a presença maciça do Núcleo de Maranguape que levou dois caminhões cheios de animais. A cavalgada super descontraída e num clima de amizade fez uma parada especial numa das muitas igrejinhas em que passou, para uma oração ao criador Cornélio Diógenes e o pai do criador Adolfo Guimarães que se encontram hospitalizados. O ponto alto da cavalgada foi a chegada ao Sítio São Luís em que fomos muito bem recepcionados por D. Cláudia Goes e família com um banquete a base de fava, carne de charque, farofa e torresmo que deve ter deixado as montarias com bem mais peso no lombo na segunda parte do passeio! 
O sítio São Luís é uma bela propriedade com sede belíssima de 1798, ano este em que não tinha o cimento para construção. Foi cenário de vários filmes, entre eles o recente Bezerra de Menezes-O Diário de Um Espírito, onde recebeu muitos artista ilustres.
Visitem e conheçam o blog do sítio para conhecer mais sua história:
Chegamos em Pacoti às 15:30hs, com todos os animais em perfeito estado
corporal e cavaleiros empolgados com tudo que viram e viveram nesse
belo dia de convivência com o MANGALARGA MARCHADOR. Parabéns aos amigos Moacir e Beto entusiasmados amantes da raça que criam e fomentos com eventos semelhante a este."
ALEXANDRE PARENTE 
Cavaleiro Luiz Otávio, da Fazenda Jarra












                                        * * * * * * * * * *


MOVIMENTO PRÓ ÁRVORE:
Grupo de onze amigos, integrantes do Movimento Pró Árvore sediado em Fortaleza, promoveu uma expedição ao Sítio São Luis no último sábado, dia 11/08/2012, dispostos a conhecerem a reserva de mata nativa da propriedade:

Bruno Ary Ferreira, Antônio Sérgio, Aziz Ary, Wilton Matos, Bilica Leo, Wladiana Matos, Thaís Monteiro, Érica Pontes e Cínthia Selene Lopes.





                         
                                                   Antônio Sérgio

                             Árvore: Araçã-vermelho - Eugenia multicostata